4 de novembro de 2015

Quem sai mais rápido do Leito e do Ventilador Mecânico, Homens ou Mulheres?

Saudações meus caros colegas de Mobilização!!!

Será que o gênero possui alguma influência em desfechos de nosso interesse em pacientes críticos? 
Um estudo brasileiro, realizado no Hospital Ministro Costa Cavalcanti, em Foz do Iguaçu tentou verificar se realmente há alguma influência do gênero em desfechos como Saída do Leito e Saída da VM.

Foram estudados 105 indivíduos (53 do gênero feminino e 52 do masculino) quanto a Tempo para Saída do Leito, Tempo para Retirada de Sedação, Tempo de VM, Capacidade para realizar exercícios fora do leito, Tempo de UTI e de internação hospitalar e Escore APACHE II.

O resultado foi que o Gênero Feminino ficou 1,9 dias a menos na Ventilação Mecânica (6,7 vs 4,8 dias), 1,6 dias a menos de Sedação (3,6 vs 2,0 dias) e saiu 2,6 dias mais cedo do Leito (5,7 vs 3,1 dias). 

Muito interessante esse resultado...

Mas dando uma olhada na Boa e Velha Tabela 1 (há se eu pudesse chamar a Tabela 1 para tomar um café...), aquela que entrega alguns viéses importantes e que muita gente deixa de olhar, podemos ver que o Gênero Feminino foi mais Estável Clinicamente, com APACHE II médio de 12,3,  contra 23,1 das pessoas do Gênero Masculino, além disso a causa de VM nas mulheres, na sua maioria foi de Pós-Cirúrgico (47% vs 39%), esses dois fatos, por si, já garantiriam um Tempo de VM e para Saída do Leito menores, apesar de a Mortalidade ter sido equivalente nos dois grupos.


Podem haver diferença entre gêneros em outros aspectos, mas não podemos afirmar que haja para Tempo de VM e para Saída do Leito (até o momento).

Até a próxima!!!

Caio Veloso da Costa
Fisioterapeuta da UTI Geral do Hospital Geral do Estado Prof. Osvaldo Brandão Vilela - AL
Especialista em Fisioterapia Intensiva - Adulto pela ASSOBRAFIR/COFFITO
Especialização latu sensu em Saúde do Adulto e do Idoso com área de concentração em Urgência e Emergência pela Residência Multiprofissional em Atenção Hospitalar da UNIFESP

LinkedIn: Caio Veloso da Costa



Referência:
1- Daniel CR, Alessandra de Matos C, Barbosa de Meneses J, et al. Mechanical ventilation and mobilization: comparison between genders. Journal of Physical Therapy Science. 2015;27(4):1067-1070. 

30 de outubro de 2015

Ascenda o Fósforo para o Desmame.

Olá colegas!!!

O sucesso no desmame e na extubação depende de muitos fatores como Pico de Fluxo de Tosse, Nível de consciência, Endurance e Força muscular, entre outros. 
Dentre os parâmetros que são analisados para a tomada de decisão de extubação, estão os Eletrólitos, mas dentre eles parece que o Fósforo tem um papel importante.
Durante o período que fiz a Residência Multiprofissional na UNIFESP, tinha uma preceptora chamada Priscila Sandri que era muito enfática em relação ao Fósforo e a pulga que ela deixou atrás da minha orelha me perseguiu por anos. E ela tem razão.
Em uma análise retrospectiva realizada na UTI do Hospital Universitário da Hacettepe University em Ankara - Turquia foi constatado que a Hipofosfatemia pode ser um fator de risco para falha no desmame.
Foram avaliados 76 pacientes em ventilação mecânica no período de 2005 a 2010 que haviam falhado no desmame/extubação e compararam com pacientes que haviam tido sucesso no processo. A média de idade foi de 65 anos, o APACHE de 20,9 e o SOFA 4,6. A taxa de falha nesses pacientes foi de 71,1%. O risco de falha quando o paciente tinha hipofosfatemia foi de 88,9%, se não apresentasse hipofosfatemia, o risco era de 65,5% (Risk Ratio: 1.36 p= 0.096).
Na regressão logística foram identificados como fatores de risco para falha no desmame: Presença de doença pulmonar crônica, Alto escore de SOFA na admissão, Uremia no dia do TRE e na extubação e Hipofosfatemia. Para cada 1 mg/dL de incremento no Fósforo, a probabilidade de falha reduz (OR: 0.43).
Em outro estudo, realizado em duas UTI's de Nova Jersey - EUA (School of Health and Medical Sciences of Seton Hall University). Foram avaliados 193 pacientes, destes 66 tiveram sucesso no desmame. Foi encontrado que a Hipofosfatemia constituiu um risco para a falha (Risco Relativo: 1.18 p = 0.01) quando comparados aos pacientes que apresentaram níveis de fósforo normais.

Então colegas, vamos ficar de olho no Fósforo.

Até a próxima!!!


Caio Veloso da Costa
Fisioterapeuta da UTI Geral do Hospital Geral do Estado Prof. Osvaldo Brandão Vilela - AL
Especialista em Fisioterapia Intensiva - Adulto pela ASSOBRAFIR/COFFITO
Especialização latu sensu em Saúde do Adulto e do Idoso com área de concentração em Urgência e Emergência pela Residência Multiprofissional em Atenção Hospitalar da UNIFESP

LinkedIn: Caio Veloso da Costa





Referências:
1- Kara AKızılarslanoğlu MCBolayır BOrtaç Ersoy EÖcal SÇakır BTezcan STopeli A
Effect of hypophosphatemia on weaning success from mechanical ventilation.Tuberk Toraks. 2015 Jun;63(2):102-8.

2- Alsumrain MHJawad SAImran NBRiar SDeBari VAAdelman M.  Association of hypophosphatemia with failure-to-wean from mechanical ventilation.Ann Clin Lab Sci. 2010 Spring;40(2):144-8.

Fisioterapia em Mulheres com Câncer de Mama

Saudações colegas, com muito prazer convidamos a Fisioterapeuta Thais Lucia Pinheiro para falar sobre a Fisioterapia em mulheres com Câncer de Mama e de sua experiência com esse perfil de pacientes.

Por Thais Pinheiro.
 
As neoplasias mamárias são o tipo de câncer que mais acomete as mulheres, depois do câncer de pele não melanoma. Segundo o INCA há uma expectativa de surgimento de cerca de 57.120 novas mulheres diagnosticadas anualmente no Brasil por esta doença, e este número só vem crescendo...
A fisioterapia precoce tem como objetivo prevenir complicações que poderão ocorrer caso não se tenha o adequado conhecimento dos fatores prognósticos. Do ponto de vista clínico, os mais importantes são o tamanho do tumor e o comprometimento axilar. O conhecimento dos fatores prognósticos é fundamental na determinação dos programas fisioterapêuticos.

A prevenção de complicações deve estar presente em todas as fases do câncer de mama: no diagnóstico; no tratamento (quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia e cirurgia); na recorrência da doença e nos cuidados paliativos. É fundamental iniciar um programa fisioterapêutico precocemente, quando as pacientes ainda não apresentam complicações, como limitações de movimentos, dor, linfedema, aderência cicatricial e fibrose dos coletores linfáticos. No entanto, muitas são encaminhadas tardiamente, o que diminui a probabilidade de recuperação. Nesses casos a fisioterapia também auxilia na prevenção e/ou diminuição de quadros de fadiga muscular e náuseas.
Quando as pacientes tem contato com o fisioterapeuta já no pré operatório, tem oportunidade de falar sobre suas ansiedades, tirar dúvidas sobre curativos, pontos e movimentação do braço. Ainda nesse período, a notícia sobre a doença e intervenção cirúrgica, leva à paciente inconscientemente adotar posturas de tensão muscular na região do pescoço e ombros. Por isso nessa fase já é importante que o fisioterapeuta avalie a presença de alterações posturais e tensionais, avalie a função do ombro e a força muscular dos braços e oriente a paciente como será o acompanhamento no pós-operatório e identificar possíveis complicações.

A fase do pós operatório imediato tem como objetivo identificar alterações neurológicas ocorridas durante o ato operatório (n. intercostobraquieal e n. torácico longo), presença de dor, edema linfático precoce e alterações na dinâmica respiratória. Já ao decorrer do tratamento, o propósito é a recuperação funcional e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida para a paciente.
O fisioterapeuta irá orientá-la a posicionar o braço na cama com o auxílio de travesseiros e orientar exercícios leves para o braço, assim como realizar exercícios respiratórios e deambuação. Nessa fase os exercícios respiratórios são muito importantes, eles ajudarão a recuperar a função pulmonar e prevenir complicações respiratórias. O uso do sutiã compressivo é muito importante, ele ajuda a pele a colar e evita o inchaço na mama e tórax. Nessa fase ainda o fisioterapeuta ensinará a fazer a automassagem, que nada mais é do que uma drenagem linfática realizada pela própria paciente afim de ajudar a prevenir a presença de inchaço no membro superior homolateral a cirurgia.

Se não houver complicações pós-operatórias, em alguns dias a paciente estará de alta hospitalar, indo para casa com os pontos e com os drenos, é importante alertar a paciente que não esqueça que os cuidados e a automassagem devem continuar sendo feitos em domicilio. Nas primeiras semanas, provavelmente a paciente ainda estará com o dreno aspirativo e com os pontos, portanto as orientações são de não levantar o braço acima de 90º para que a ferida operatória não abra, pois somente na avaliação, a amplitude de movimento é livre. Em alguns casos o médico e o fisioterapeuta podem liberar a movimentação livre do braço de acordo com o limite de dor.

Os recursos analgésicos (TENS, crioterapia, mobilização passiva, técnicas de relaxamento muscular, acupuntura) complementam o tratamento fisioterapêutico que pode ser medida pelo grau de independência alcançado pela paciente, proporcionando alívio da dor, diminuindo os riscos de infecção, aumentando a mobilidade de membros superiores e reduzindo a necessidade de medicamento como analgésicos.

Durante o período de internação o enfoque é global, prevenindo, minimizando e tratando complicações respiratórias, motoras e circulatórias. A dor é uma das principais e mais frequentes queixas da paciente, devendo ser valorizada, controlada e tratada em todas as etapas da doença, as diversas técnicas para analgesia caracterizam a fisioterapia em oncologia.

Thais Lucia Pinheiro - Fisioterapeuta

Especialista em Saúde da Mulher - ABRAFISM/COFITTO
Especialização em Fisioterapia em Ginecologia - Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
Especialização em Ergonomia - Universidade Gama Filho
Mestranda em Ginecologia pela disciplina de Mastologia - Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
Preceptora da Especialização de Fisioterapia em Ginecologia e da Residência Multiprofissional em Saúde da Mulher da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
Coordenadora da Academia VO2 Personal
Conselheira do Caderno de Uroginecologia da Revista Fisioterapia Brasil
Contato: thaispin@hotmail.com


Referencias Bibliográficas
·         ABREU, Evaldo; KOIFMAN, Sérgio. Fatores prognósticos do câncer da mama feminina. Revista Brasileira de Cancerologia, Rio de Janeiro, v.48, n.1, p.113-31. 2002.
·         BATISTON, Adriane Pires; SANTIAGO, Silvia Maria. Fisioterapia e complicações físico-funcionais após tratamento cirúrgico do câncer de mama. Fisioterapia e Pesquisa, São Paulo, v.12, n.3, p.30-35. 2005.
·         BERGMANN, Anke et al. Fisioterapia em mastologia oncológica: rotinas do Hospital do Câncer III/INCA. Revista Brasileira de Cancerologia, Rio de Janeiro, v.52, n.1, p.97-109. 2006.
·         BERGMANN, Anke. Fisioterapia no câncer de mama: assistência, ensino e pesquisa. Trabalho apresentado na Semana de Fisioterapia da Universidade Estácio de Sá, maio de 2008. Petrópolis. 2008.
·         BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional do Câncer. Controle do câncer de mama: documento de consenso. Rio de Janeiro: Inca. 2014.
·         GUNDERSON; et al. Palliative Care For Bone , Spinal Cord, Brain and Liver Metastases. Clinical Radiation Oncology. 2ed. 2007. p.437.
·         INSTITUTO ONCOGUIA; Disponível em: <http://www.oncoguia.org.br/conteudo/fisioterapia-no-pos-operatorio-do-cancer-de-mama> Acesso em: 23 de out. 2015.

·         FARIA, Lina; As práticas do cuidar na oncologia: a experiência da fisioterapia em pacientes com câncer de mama. v.17, supl.1, jul. 2010, p.69-87.

25 de outubro de 2015

Avaliação de Mobilidade/Funcionalidade em Pacientes Críticos

Saudações colegas.
Avaliar a Mobilidade/Funcionalidade é de extrema importância na nossa prática, já que podemos, além de estabelecer o nível funcional, extrair informações que podem nos auxiliar a construir um Planejamento Terapêutico. 
A Mobilidade em Terapia Intensiva vem sendo muito estudada nos últimos quatro anos, já que existe uma associação entre Mobilidade e Desfechos Favoráveis (Menor tempo de VM, Mortalidade, e Tempo de internação, além de Maior Força Muscular e Capacidade Funcional. Devido a esse impacto, existem publicadas, pelo menos 26 ferramentas para avaliação da Mobilidade em UTI.
Mas qual o motivo de termos que utilizar ferramentas específicas?
Recentemente, foi publicada uma Revisão Sistemática com Metanálise, onde o resultado demonstrou a ausência de efeitos da Mobilização Precoce no Status Funcional (Mobilização Precoce não melhora Status Funcional...), mas o ponto em questão é que as escalas utilizadas não eram específicas para avaliação funcional de pacientes críticos.
Dentre as 26 ferramentas, figuram as principais e com maior número de publicações: ICU Mobility Scale (IMS), FSS ICU Mobility Scale (IMS)Functional Status Score (FSS-ICU)The Perme Intensive Care Unit Mobility Score, Physical Function ICU Test (PFIT) e Chelsea Critical Care Physical Assessment tool (CPAx). Cada uma com sua particularidade e aplicabilidade.
  1. IMS -  avalia puramente a Mobilidade, com escore de 0 (Restrito ao Leito) a 10 (Deambula sem auxílio por pelo menos 5 metros).
  2. FSS -  baseada na MIF, possui 2 categorias: Mobilidade no Leito e Saída do Leito, com 5 ítens a serem avaliados no total, com pontuação de 0 (Não realiza) a 7 (Independência).
  3. Perme -  já analisada por nós (Escala Perme de Avaliação Funcional em UTI. Estamos no caminho certo!) vem com itens interessantes, como a Identificação de Barreiras à Mobilização, Força e Endurance, além de categorias de Mobilidade.
  4. PFIT - de fácil aplicação, pode servir como base para prescrição e progressão da terapia (Como prescrever a minha terapia? Physical Function ICU Test.), seus autores ainda recomendam que essa sistemática poderia ser transportada para outros setores hospitalares, com pacientes mais estáveis e fora da UTI.
  5. Chelsea - além de Mobilidade, inclui avaliação de Tosse e de Função do Sistema Respiratório.
Mas qual dessas devemos utilizar? Um recente estudo realizado na Austrália Functional outcomes in ICU – what should we be using? - an observational study, comparou três dessas ferramentas, PFIT, FSS e IMS. Foi encontrado uma superioridade da PFIT e FSS, para avaliação de status funcional. Mas o que devemos levar em consideração na decisão clínica para a escolha de uma das escalas, é o perfil do paciente e da unidade em que trabalhamos, bem como conhecimento sobre cada uma dessas ferramentas, pois nada exclui que exista a necessidade do uso de mais de uma dessas ferramentas na nossa prática diária.
Outra coisa que temos que ter em mente, é que devido ao fato de essas escalas serem recentes, nenhuma delas, até o momento, está Adaptada e Validada para o português. A FSS e a Perme, já estão em processo de validação.

Até a próxima!!!

Caio Veloso da Costa
Fisioterapeuta
Especialista em Fisioterapia Intensiva - Adulto pela ASSOBRAFIR/COFFITO
Especialização latu sensu em Saúde do Adulto e do Idoso com área de concentração em Urgência e Emergência pela Residência Multiprofissional em Atenção Hospitalar da UNIFESP

LinkedIn: Caio Veloso da Costa




Referências
1- Castro-Avila AC, Serón P, Fan E, Gaete M, Mickan S.  Effect of Early Rehabilitation during Intensive Care Unit Stay on Functional Status: Systematic Review and Meta-Analysis. PLoS One. 2015 Jul 1;10(7):e0130722.

2- Hodgson CNeedham DHaines KBailey MWard AHarrold M, et alFeasibility and inter-rater reliability of the ICU Mobility Scale.Heart Lung. 2014 Jan-Feb;43(1):19-24.

3- Thrush ARozek MDekerlegand JLThe clinical utility of the functional status score for the intensive care unit (FSS-ICU) at a long-term acute care hospital: a prospective cohort study.Phys Ther. 2012 Dec;92(12):1536-45.

4- Perme C, Nawa RK, Winkelman C, Masud F.A Tool to Assess Mobility Status in Critically Ill Patients: The Perme Intensive Care Unit Mobility Score.Methodist Debakey Cardiovasc J. 2014;10(1):41-9.

5- Skinner EH, Berney S, Warrillow S, Denehy L. Development of a physical function outcome measure (PFIT) and a pilot exercise training protocol for use in intensive care unit. Crit Care and Resusc. 2009;11(2):110-115.

6- Corner EJ, Soni N, Handy JM, Brett SJ. Construct validity of the Chelsea critical care physical assessment tool: an observational study of recovery from critical illness. Critical Care. 2014;18(2):R55.

7- Parry SM, Denehy L, Beach LJ, Berney S, Williamson HC, Granger CL. Functional outcomes in ICU – what should we be using? - an observational study. Critical Care. 2015;19(1):127.

25 de setembro de 2015

Parecer referente a participação do Fisioterapeuta durante a realização de traqueostomia.

Olá colegas.
Muitos Fisioterapeutas são aliciados, alguns fazem até questão, de participar ativamente do procedimento de traqueostomia na beira do leito.
- Ah, vocês têm um jeitinho especial de desinsuflar o cuff e puxar o tubo...
Mas na realidade existe um parecer da ASSOBRAFIR que nos reguarda sobre o assunto.

São Paulo, 05 de fevereiro de 2013.

Parecer 004/2013

A traqueostomia é considerada um procedimento cirúrgico, sendo, portanto, atribuição de um médico cirurgião. A literatura especializada atual recomenda a sua realização em ambiente de bloco cirúrgico, com recursos e equipe apropriada, minimizando dessa forma os riscos, podendo a mesma, em casos bem selecionados, ser realizada no interior das unidades de terapia intensiva (UTIs).

Os procedimento empregados durante a realização da traqueostomia não se correlacionam às técnicas aplicadas por Fisioterapeutas. Somando-se a isso, não é observada entre as atribuições do Fisioterapeuta especialista em Fisioterapia Respiratória ou em Fisioterapia em Terapia Intensiva a indicação para o acompanhamento de procedimentos cirúrgicos, inclusive a realização de traqueostomias, conforme evidenciado através das Resoluções  COFFITO nº 400/2011 e nº 402/2011, as quais disciplinam essas especialidades profissionais.

Dessa forma, a Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Fisioterapia em Terapia Intensiva - ASSOBRAFIR entende que não é atribuição do Fisioterapeuta auxiliar e ou acompanhar o procedimento cirúrgico de realização de traqueostomia.

Dr. Flávio Maciel Dias Andrade - Diretor Científico Geral da ASSOBRAFIR

Dra. Jocimar Avelar Martins - Presidente da ASSOBRAFIR


23 de setembro de 2015

Ô Fisio!

Olá colegas!
Desde a criação deste blog, já tinha idéia de escrever sobre este assunto, mas não me sentia preparado para fazer um texto com uma abordagem mais complexa e com menor contexto emocional.
Nesses quase 5 anos de história profissional sempre me ofendi com um termo que é muito difundido: A alcunha de FISIO. Para mim, sempre representou uma despersonalização desproporcional e de certa forma uma tentativa de demonstração de poder. Tão descaracterizador, enquanto pessoa, que é um adjetivo sem gênero. 
O que leva uma pessoa que trabalha com você por vários anos, te chama pelo nome quando se refere a você com outras pessoas, te chama pelo nome fora do hospital, mas lá dentro te chama de FISIO?
Após várias dicas com os colegas da Psicologia da Residência Multiprofissional da UNIFESP, uma delas foi unânime: Cara, você tem que ler Microfísica do Poder de Michel Foucault. Depois de ler e adquirir mais bagagem na carreira, me senti na obrigação de "viajar" e escrever sobre isso.
Em primeira análise, podemos nos basear que todas as interações dos profissionais da equipe são relações de poder, mesmo que haja uma tentativa de horizontalidade nas composições (em tese) das equipes. O que percebemos é uma exigência, mesmo que implícita, da presença de uma hierarquia e como ela não é definida, se expressa desta forma, a tentativa de subjugação por outras categorias sob forma de tratamento.
Não podemos deixar de levar em consideração que nós, Fisioterapeutas, somos a categoria profissional que chegou por último na equipe e que ainda lutamos para adquirir certos limites, coisa que até entre nós, ainda é uma grande problemática. Talvez a busca pela aceitação dentro da equipe, fez com que passássemos a realizar atividades das outras categorias e hoje isso se constitui em um importante fator confundidor na criação de uma identidade sólida da Fisioterapia em Terapia Intensiva. Claro que há exceções.
A segunda análise, é que temos que ter em mente que talvez a adjetivação possa representar uma busca pelo que representamos dentro da UTI. Se te chamam pela sua profissão, esperam que faça o que um Fisioterapeuta faria, assim como chamamos um Garçom em um restaurante. Acredito que essa análise tenha uma dimensão muito menor no contexto, já que existem outras categorias profissionais dentro da UTI que raramente se referem a nós como FISIO.
Essa não é uma generalização, apenas a observação do meu microcosmo.
O que acham?

Até a próxima!!!

Caio Veloso da Costa
Fisioterapeuta da UTI Geral do Hospital Geral do Estado Professor Osvaldo Brandão Vilela - AL
Especialista em Fisioterapia Intensiva - Adulto pela ASSOBRAFIR/COFFITO
Especialização latu sensu em Saúde do Adulto e do Idoso com área de concentração em Urgência e Emergência pela Residência Multiprofissional em Atenção Hospitalar da UNIFESP

LinkedIn: Caio Veloso da Costa

Referência:
1- Foucault Michel. Microfísica do poder. 24ª ed. Organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal. 1979.

18 de setembro de 2015

MUDANÇA DE HÁBITO – OXIGÊNIO NO FIM DE VIDA!!!

Saudações colegas!!!
Mais uma vez temos a honra de convidar a Dra. Bianca Orestes para mais um texto sobre Fisioterapia em Cuidados Paliativos.


A típica conversa de corredores entre profissionais:
P1- Oxigênio é vida para você?
P2-Claro que sim, e muita!
P1-E na morte, ajuda na vida?
P2-Ah, não sei, só sei que por precaução melhor ofertar!
O medo, receio, a dificuldade de mudança de valores e condutas e a falta de conhecimento trazem a banalização dos atendimentos do paciente sob cuidados paliativos.
Um assunto polêmico, pois oxigênio é “vida”, e nos hospitais, o que vem apresentando mudanças mesmo com resistência, os pacientes não estão alojados para morrer e sim para viver e serem curados.
PLAY – MUDANÇA DE HÁBITOS!!!
Atualmente as doenças que não apresentam possibilidade de cura crescem progressivamente, 50-75% da população morre por uma enfermidade crônica, ou seja, a mudança do perfil destes pacientes está mudando e este processo necessita da conscientização para a melhora do cuidado, diminuindo assim a possibilidade de vida a qualquer custo.
A famosa frase, MORRER COM DIGNIDADE, parece um tanto “viveram felizes para sempre”, em que tudo é perfeito, pois bem, digo que isso é um conceito romântico, pois para este cuidado devemos e precisamos estudar e adquirir conhecimento para isto, não é tão natural quanto parece, pois vai além, ele segue um conhecimento sólido, a humanização, a individualização entre outros quesitos que levarão ao alívio de todos os sintomas presentes que causam sofrimento no paciente e familiares. Agora sim iniciamos a aproximação com o conceito de morte digna.
A falta de ar é um dos sintomas que nos incomoda quanto a morte digna, afinal quem aceita morrer com falta de ar? Eu digo com certeza que não aceito e por isso escrevo este texto. A dispneia continua a ser um sintoma devastador de difícil controle, sendo que praticamente 80% dos pacientes vivenciam este sintoma no fim de vida.
A avaliação cuidadosa e rigorosa é necessária para uma abordagem mais precisa com o objetivo de reduzir a aflição, sofrimento para a melhora de qualidade de vida, ou mesmo de morte do paciente é imprescindível para todos os envolvidos.
Cuidar do paciente sem fôlego envolve a ajuda da equipe multiprofissional e acredito que tememos este sintoma e já nos deparamos por este momento de desespero e angustia. A questão é: Será que realmente paramos para nos atentar das evidências de terapias para este sintoma, ou estamos banalizando nossas condutas?
Diante da dificuldade do nosso dia a dia, essa sensação eminentemente subjetiva de avidez por ar nos remete ao primeiro passo: oxigenoterapia!!!
O oxigênio paliativo é uma terapia amplamente prescrita no atendimento de pacientes com falta de ar. Historicamente, uma justificativa baseada em compaixão sustenta a decisão clínica do uso de oxigênio paliativo, simplesmente por um estigma e uma barreira interpessoal e social. Alguma identificação, ou mera coincidência?
Apesar de não existir diretrizes, A revista CHEST em 2010 mostrou que há um consenso claro sobre o uso de oxigênio para aliviar a dispneia em pacientes com hipoxemia crônica, embora os resultados de quatro ensaios clínicos randomizados não demonstraram nenhum benefício consistente. Em outro estudo, controlado de pacientes hipoxêmicos que apresentavam dispneia Bruera et al. em 1993, já sendo comentado, mostraram que o oxigénio nasal ou o ar administrado pela mesma via melhorou significativamente a dispneia, no entanto o simbolismo do oxigênio como o portador da vida e o ruído reconfortante contribui para a utilização maciça desta terapia.
Para os pacientes sem hipoxemia, Mahler et al, em 2010, realizaram uma pesquisa bibliográfica e não identificaram quaisquer estudos que avaliaram os efeitos da suplementação do oxigênio para o alívio da dispneia em pacientes com acometimento pulmonar avançado ou doença cardíaca.
Abernathy et al., em 2010, em um ensaio clínico randomizado, mostraram que a oxigenoterapia comparada com o placebo, não mostrou significância para alteração no quadro clínico do paciente apresentava saturação maior que 90%, porém demonstraram que qualquer movimento de ar ambiente ou por cânula nasal de oxigênio podia levar a melhora da falta de ar.
Bruera et al; Booth et al, Philip et al, e Ahmedzai et al, concentraram-se no oxigênio medicinal versus ar para o alívio da dispneia, exceto o quarto estudo que avaliou o uso de Heliox, um novo agente contendo 72% hélio e 28% de oxigênio vs oxigênio medicinal e conclui-se que o oxigênio não foi eficaz na redução da sensação de dispneia nos pacientes com câncer, porém um dos estudos relata que há pacientes que possuem a preferência significativa pela terapia do oxigênio, mas mesmo assim não é significativo a melhoria da falta de ar.
Com tantas evidências podemos aliviar nossas angustias e clarear nossas condutas, pois é nítido que há pouco ou nenhum benefício relacionado a terapia do oxigênio no fim de vida de pacientes em cuidados paliativos, porém temos a opção do fluxo de ar, que está melhor descrito nos estudos, seja com um ventilador ou ar fresco, isto auxiliará na redução da falta de ar.
Que fique claro: esta é uma terapia e não um placebo, então não vamos ter receio de utilizá-la, pois isto não significa que somos negligentes nos pacientes em cuidados paliativos no fim de vida e sim que estamos à procura de uma conduta de alívio melhor aplicada.
A justificativa para o efeito do fluxo de ar na face é que este estimula o segundo e terceiro ramos do nervo trigêmeo que irá reduzir a sensação de falta de ar, inclusive para pacientes com doenças respiratórias. O movimento de gás através das vias nasais influenciam na sensação de  alívio da dispneia e da ansiedade do paciente e melhora o estado psicológico, Campbell et al, em 2013, e Abernethy, em 2010, descobriram que um ventilador de mão direcionado para a face melhora dispneia, ou seja o aumento do fluxo de ar. Entre as pessoas com DPOC o ato de soprar ar na face ( janela aberta, ventilador) significativamente diminuiu a sensação de dispneia induzida por uma carga resistiva e sem hipercapnia.
Importante ressaltar que além do oxigênio não trazer benefícios para este cenário é um artefato inflamável possui dificuldades para obtenção, custo elevado, e causa efeitos adversos como ressecamento e sangramento nasal, incomodo, diminuição de mobilidade entre outros, e o ventilador é baixo custo, de fácil utilização e não necessita de prescrição. Perfeito!!!
A perfeição ainda está longe, porém o preconceito de condutas atrapalha nosso crescimento profissional e principalmente prejudica de certa forma o nosso protagonista, o paciente!!! Lembrando que mesmo com oferta de fluxo de ar outras condutas farmacológicas e não farmacológicas deverão estar associadas para todo e qualquer sintoma.
É fundamental no cuidado paliativo, na fase final, nos esforçarmos para tratar o sintoma, isto é, a respiração, e não hematose, e acreditar no auto relato do paciente, e se qualquer fluxo de ar melhorar o seu auto relato, inclusive o oxigênio, devemos manter, porém se ele incomoda, devemos removê-lo.
Nada é tão padronizado que não possa ser modificado quando se trata de seres humanos, as evidências são nossos guias, porém a situação é individualizada. A morte neste caso é inevitável, então vamos inciar condutas que tragam menos desconforto.

Sugiro a reflexão e principalmente a tentativa. Digo novamente:

APERTE O PLAY COM SEGURANÇA E MUDE DE HÁBITO! 

Dra. Bianca Orestes Antunes
Fisioterapeuta
Especialista em Urgência e Emergência pela Residência Multiprofissional em Atenção Hospitalar - UNIFESP.
Especialização em andamento em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium Latinoamérica.
Fisioterapeuta do Hospital Beneficência Portuguesa - SP e do Hospital Alvorada - Unidade Moema .

Referências: 
1.       BRUERA E, DE SHOUTZ N, VELASCO-LEIVA A, SCHOELLER T, HANSON J: Effects of oxygen on dyspnoea in hipoxemic termina-cancer patients. Lancet, 1993
2.        MAHLER, D. A.; SELECKY ,P .A.; HARROD, C.G., et al. American College of Chest Physicians Consensus Statement on the Management  of Dyspnea in Patients With Advanced Lungor Heart Disease: Review, CHEST, 2010
3.        BOOTH, S.; MOOSAVI, S.H.; HIGGINSON, I. J. The etiology and management of intractable breathlessness in patients with advanced cancer: a systematic review of pharmacological therapy, Nature Clinical Practice Oncology, 2008,Vol 5 no 2;
4.     CAMPBELL, M.L.; YARANDI, H.;MEDOWS, E.D. Oxygen Is Nonbeneficial for Most Patients Who Are Near Death. Journal of Pain and Symptom Management , 2013 ,Vol. 45 No. 3;
5.     AHARONAC, I.B; GVILIBC, A.G.; LEIBOVICIBC, L, et al. Interventions for alleviating cancer-related dyspnea: A systematic review and meta-analysis. Acta Oncologica, 2012; 51: 996–1008;
6.     ABERNETHY, A.P.; MCDONALD, C.F.; FRITH, P.A., et al. Effect of palliative oxygen versus room air in relief of breathlessness in patients with refractory dyspnoea: a double-blind, randomised controlled trial. Lancet, 2010;376:784-793;
7.     URONIS, H.E; CURROW, D.C.;MCCRORY, D.C., et al. Oxygen for relief of dyspnoea in mildly- or non-hypoxaemic patients with cancer: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Cancer ,2008; 98: 294 – 299;
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